Esclerose múltipla e o preço de calar

Há dores que o corpo não cria, apenas traduz.
Quando a alma se cala por tempo demais, o corpo começa a procurar outras formas de falar. Às vezes, ele grita através do cansaço. Outras, através da dor. E, em alguns casos, o grito vem disfarçado de diagnóstico: uma doença autoimune, um corpo que começa a lutar contra si mesmo.

Gabor Maté costuma dizer que as pessoas com doenças autoimunes não adoecem apenas por acaso. Ele descreve um padrão emocional comum, especialmente em mulheres: aquelas que se doam demais, que raramente dizem “não”, que colocam o mundo nos ombros e chamam isso de amor. Mulheres que aprendem a ser fortes, mas esquecem o que é ser inteiras.

A esclerose múltipla, sob o olhar simbólico da decodificação biológica de Christian Flèche, representa um conflito com o movimento, um corpo que se vê preso entre o impulso de agir e a impossibilidade de fazê-lo. É como se o sistema nervoso dissesse: “eu quero ir, mas algo em mim não pode.”
O corpo endurece onde a alma travou.

A paralisia física revela o quanto estamos paralisadas por dentro — pela culpa, pelo medo de desapontar, pela exigência de sermos tudo ao mesmo tempo.

E antes que o corpo adoeça, há sinais sutis que tentam nos avisar: a insatisfação constante, o esgotamento, o comer sem fome, o vazio que nenhuma conquista preenche.
Às vezes buscamos açúcar quando falta doçura na rotina, ou café quando falta energia vital.
Mas isso não é fraqueza — é uma tentativa inconsciente de preencher algo que o corpo e a alma ainda não sabem nomear.

Não se trata de culpa, e sim de escuta: de compreender o que realmente estamos tentando nutrir quando comemos sem presença.
Porque nem sempre é fome de alimento.
Às vezes, é fome de leveza, de pausa, de ser nós mesmas.

O corpo não erra, ele apenas conta a verdade que tentamos esconder.
E a verdade é que ser forte demais também adoece.
Ser forte o tempo todo é uma forma elegante de dizer que não confiamos o suficiente para sermos frágeis.

Mas a saúde não está na perfeição e sim no movimento.
Na leveza de poder parar.
No “não” que nos devolve inteiras.
Na pausa que permite à alma respirar.

O corpo adoece para que a alma volte a se mover.
E quando finalmente a escutamos, algo se realinha — o tempo desacelera, a respiração volta, e a vida cabe outra vez dentro de nós.
Não é milagre. É retorno.

O corpo só queria isso: que voltássemos a viver por inteiro.

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